Atualizado em 14/04/2015 às 16:16

Somente 10% das famílias abordadas aceitam doar órgãos de parentes




 

De cada dez famílias, nove dizem “não” para a doação dos órgãos de parentes que tiveram morte encefálica. Essa é a estatística da rotina enfrentada pela equipe de Entrevista Familiar da Central de Transplantes do Estado de Goiás e, mesmo diante de um placar tão desfavorável, a equipe não desiste, nem tão pouco deixa de compreender a dor e o sofrimento dos que dizem não. No dia seguinte, com a mesma paciência e delicadeza, estão realizando o mesmo trabalho, de abordar quem sofre com a dor da morte, na esperança de diminuir a fila de espera por um órgão.
            
Para a Coordenadora Técnica da Central de Transplantes, Leila Márcia de Faria, a entrevista familiar é a parte mais difícil do processo de captação de um órgão e requer, além de qualificação específica, controle emocional e um grande suporte psicológico. “A família está abalada, vivendo uma dor indescritível e nós temos que esperar o momento certo para fazer a abordagem. Ouvimos de tudo: desde relatos desesperados até ofensas e desaforos. Alguns nos comparam a urubus de tocaia”. Se isso magoa? A coordenadora diz que não chega a magoar, mas não deixa de ser um momento difícil para a equipe.
            
Nas palavras da psicóloga Flávia Martins, o que impede que a autoestima seja afetada é a empatia. “Nós nos colocamos no lugar do outro e entendemos que o momento é de muito sofrimento. Tentamos não levar para o lado pessoal, mas também somos humanos e é tudo muito delicado”, explica.
            
Integrar a equipe de Entrevista Familiar da Central de Transplantes não é para qualquer um. A qualificação para a função é constante e a formação inicial exigida é nas áreas de psicologia e enfermagem. Os integrantes da equipe estudam a Teoria da Comunicação de Má Notícia, se informam sobre os maiores mitos e medos, aprendem a explicar a morte encefálica de maneira coloquial e, principalmente, estudam as técnicas de acolhimento. O tom de voz certo, a disposição para ouvir, um copo com água, uma cadeira para a pessoa se sentar ou mesmo um abraço. Tudo é acolhimento e não é possível precisar qual desses gestos vai estabelecer a conexão entre o familiar desesperado e o profissional da Central.
            
“Já abordamos famílias debaixo de uma árvore, no estacionamento do Hugo; outras precisamos levar para uma sala reservada e ouvir relatos sobre os planos que o falecido tinha para o futuro. Já presenciamos a mãe chorar desesperadamente a perda do único filho enquanto o pai, diante do pranto da mulher, não podia fraquejar e demonstrar o quanto estava sofrendo também. Uma troca de olhar com aquele homem foi suficiente para estabelecer o diálogo e tratar do assunto algumas horas depois”, relembra a enfermeira Rosângela da Silva Nunes.
            
Apenas dez por cento das entrevistas familiares podem ser consideradas tranquilas. As demais podem ser classificadas como difíceis e tensas. Isso, quando a entrevista acontece. Há casos em que as famílias simplesmente se recusam a conversar com a equipe da Central e, quando perguntadas se concordariam em falar num outro momento, respondem com a palavra nunca.
            
Normalmente, as equipes de Entrevista Familiar nunca ficam visíveis nos hospitais. Elas só aparecem quando há uma notificação de morte encefálica. Apenas o médico pode comunicar o óbito à família mas, nem sempre, o faz com a clareza necessária. São comuns os casos nos quais as famílias, após as explicações, continuam sem alcançar o que realmente entendeu. Só compreendem quando o médico informa “a hora da morte”.
 
Saiba Mais


A equipe de Entrevista Familiar da Central de Transplantes de Goiás é composta por nove enfermeiros e seis psicólogos, que trabalham 24 horas, em esquema de revezamento.
            
Os hospitais que mais notificam casos de morte encefálica são o Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo), Hospital Santa Mônica e Hospital Neurológico, nesta ordem.
            
Em 2014, as equipes de Entrevista Familiar fizeram 124 entrevistas e obtiveram 97 recusas. O levantamento é trimestral. De janeiro a março, foram 28 entrevistas, com 25 recusas (89% de negativas); de abril a junho, 33 entrevistas e 25 recusas (76% de negativas); de julho a setembro, 41 entrevistas e 33 recusas (80% de negativas); de outubro a dezembro, 22 entrevistas e 14 recusas (78% de negativas).
 
  
Medos e mitos são entraves para a doação de órgãos
 
Que morte é essa na qual o coração continua batendo? Ou a perna treme de vez em quando? O corpo continua quente e os pulmões ainda se enchem de ar? Cabe aos profissionais da Central de Transplantes do Estado de Goiás responder essas perguntas e lidar com as três fases que envolvem a perda: desespero, choque e aceitação.

A doação demora a ser abordada. Primeiro, as dúvidas sobre as causas da morte são esclarecidas e, geralmente, o próprio familiar admite que o quadro era grave, uma situação muito comum em vítimas de acidentes de trânsito. O passo seguinte é deixar claro que todos os recursos e possibilidades foram empregados e se mostraram insuficientes, pois não houve melhora no quadro clínico. Nesse momento, muitos pedem uma transferência para outro hospital e a realização de novos exames, além de cogitar a contratação de empréstimos para pagar outros tratamentos. A equipe da Central deixa claro que nada disso será capaz de alterar a situação e explica, detalhadamente e de maneira bem coloquial, o que é a morte encefálica.
            
Assim que a família demonstra ter compreendido o que é a morte encefálica, a equipe começa a tratar da doação de órgãos. O assunto é abordado com delicadeza e sensibilidade, com o familiar sendo incentivado a falar sobre o falecido: se era uma pessoa caridosa, se seguia alguma religião, se gostava de ajudar o próximo e, dependendo das respostas, se já tinha falado da intenção de ser um doador de órgãos.
            
Quando a resposta é positiva, surgem as dúvidas, medos e mitos. O tráfico de órgãos é o número um e a equipe explica as razões pelas quais se trata de uma lenda. Primeiro, um órgão não pode ser transplantado aleatoriamente, visto que é necessária a compatibilidade entre doador e receptor; depois, os órgãos possuem um tempo de vida útil muito curto após a retirada do corpo e precisam seguir rígidas normas de conservação; para finalizar, existe a legislação brasileira, que pune com prisão de dois a oito anos, mais multa, quem trafica órgãos.
            
As restrições religiosas também costumam ser um entrave. Muitos acreditam que o familiar deve “voltar inteiro”, “do jeito que veio” e, para tal argumento, a equipe lembra que, mais que um órgão, Jesus doou a vida pela humanidade e que, textualmente, nenhuma religião se opõe à doação e aos transplantes.
            
A aparência do corpo também é motivo de preocupação e a equipe precisa tranquilizar a família, explicando que a aparência não muda com a retirada dos órgãos, apenas alguns pontos, imperceptíveis durante o velório.
 
Tabu
Todo esse esclarecimento não é garantia de doação e os profissionais se deparam com as situações mais inusitadas. Há quem concorde em doar todos os órgãos, menos o coração; há quem só autorize a retirada das córneas e há quem queira saber quem vai receber o órgão. Nas duas primeiras situações, o desejo da família é completamente respeitado. A possibilidade de conhecer o receptor, porém, é descartada. “Informamos, no máximo, o sexo do receptor e a idade. Dependendo do caso, informamos a cidade. Nada além disso, pois não seria ético e poderia criar problemas futuros”, esclarece a Coordenadora Técnica da Central de Transplantes, Leila Márcia de Faria.

Apesar das campanhas de conscientização e incentivo, a doação de órgãos ainda não é muito abordada nas famílias. O assunto ainda é um tabu e é a principal causa de não doação. Mesmo quando a família aceita ouvir a equipe e compreende a importância do que pode vir a ser feito, a recusa é comum, com o argumento de que o morto nunca falou sobre o assunto e ninguém quer correr o risco de desrespeitar quem já se foi. “A primeira atitude de quem quer doar é falar sobre isso com a família e os amigos”, afirma Leila.

A decisão só pode ser tomada pelo pai, mãe, filho, marido ou esposa. Na falta desses, se outro membro da família fizer muita questão de doar, é preciso procurar o Ministério Público, que deverá conceder a autorização. 
Se houver divergência entre o desejo do pai e da mãe, por exemplo, a captação não é realizada e nada é feito às escondidas. “Tivemos um caso de uma mãe que queria doar, mas o pai não concordava. Como ele estava no Maranhão e teria que se deslocar, ela disse para fazermos e ele nem ficaria sabendo. Não concordamos. Não podemos concordar com isso”, afirma a psicóloga Flávia Martins. Ela completa dizendo que a doação é um processo para a família se sentir bem, mesmo em um momento de dor.

O zelo com os argumentos atinge um nível impensado para quem não lida diretamente com a situação. Ao contrário do que se imagina, o argumento de que “a doação salva vidas” ou “ajuda quem está precisando” nunca é usado durante a entrevista familiar. A experiência comprova que a melhor abordagem é a que trata a doação como um direito. De acordo com a psicóloga, é muito complicado atribuir a uma família que está sofrendo o peso de fazer outra feliz. “É uma situação na qual não cabe coação, chantagem emocional nem nada do tipo”, lista Flávia Martins. Ela lembra de uma mãe que disse que não concordaria com a doação pois, “se Deus não tinha ouvido o apelo dela, ela não iria ajudá-lo a ouvir o apelo de outra mãe”. A mãe insistiu que queria o filho dela de volta e não dar uma nova chance ao filho de outra.

Em situações como essas, não cabem rótulos como “egoísta”, “insensível” ou qualquer outro equivalente. O que vale é entender que não é fácil para ninguém. A família que perde, a equipe de entrevista que aborda, todos são e estão vulneráveis, numa situação instável, que requer equilíbrio entre direitos e deveres.
           
Outro equilíbrio delicado é o que diz respeito à durabilidade do órgão e ao tempo da Entrevista Familiar. Segundo a Coordenação da Central, nenhuma entrevista dura menos de duas horas e já houve casos em que ela durou três dias. As famílias têm tempo para pensar e há troca de contatos. A partir de determinado ponto, a Central não procura a família e espera que ela mantenha contato. “Não podemos pressionar. Deixamos claro que o tempo é importante, mas não pressionamos. Há um momento em que a gente entende que a resposta é não“, explica a psicóloga Flávia Martins.
 
Morte encefálica e coma
 
A morte encefálica é uma situação irreversível, na qual o cérebro para de funcionar definitivamente e, consequentemente, de comandar o corpo. O funcionamento dos diversos órgãos, músculos e tecidos acontece de maneira artificial, com uso de aparelhos e medicamentos. O corpo pode ser mantido vivo dessa forma por um tempo limitado, que varia de um organismo para outro.

O coma é reversível e se caracteriza por um menor nível de consciência, muito semelhante a um sono profundo. As células cerebrais continuam vivas e, com isso, os neurônios fazem as reações elétricas. É uma situação reversível e a duração do coma varia de um indivíduo para o outro. O coma induzido pode ser suspenso com indicação e intervenção médica; já do coma espontâneo o paciente precisa despertar naturalmente.

O diagnóstico de morte encefálica segue um protocolo que determina a realização de diversos exames, com um intervalo mínimo de seis horas, entre a primeira e a segunda bateria de testes

 


Fonte: Secretaria de Estado da Saúde de Goiás


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